Quando foi que eu me perdi de mim mesma?
Talvez tenha sido quando acreditei que podia ser verdade. Quando decidi firmar os meus pés e o meu coração onde acreditei que ficaria segura, confortável... Acolhida, enfim, daquele frio que já se tornara tão corriqueiro e dolorido. E caí. No breve instante em que toquei aquela superfície, ela se dissipou. E não houve tempo sequer para me voltar para o lugar que outrora me sustentava, mas ao mesmo tempo me prendia.
Talvez tenha sido quando acreditei que eram verdades. Quando as deixei entrar tão fundo que atingiram o lugar que por tanto tempo mantive guardado, mas decidira abrir... E lá elas se encravaram. E ali, pouco a pouco, hediondas, vão contaminando, ressecando, enegrecendo, dilacerando, matando.
Talvez tenha sido quando achei que era verdade que eu não sentia. Quando pensei que podia fazer como sempre fizera e esconder de tudo, de todos, de mim mesma, o que me vinha por dentro. E de repente não podia. De repente, com uma força insustentável, a barragem rompeu. E eu me afoguei.
Talvez tenha sido quando percebi que o que eu sentia era de verdade. E não pude fugir da dor me envolveu, no lugar daquele calor que eu esperava, no lugar até mesmo do frio corriqueiro. Dor de saber, de sentir, de existir. A dor profunda que precede a desistência definitiva.
Talvez tenha sido quando me dei conta de que, no fundo, eu nunca estivera comigo mesma... E talvez nunca me encontre.
(Leia o primeiro "Jornalista também escreve crônica")
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