Estava eu assistindo ao documentário de Caio Cavechini, ex-aluno da ECA-USP - Antes, um dia e depois, de 2006, para a disciplina "Projetos em TV". O TCC do rapaz rendeu-lhe vaga no quadro "Profissão Repórter", do Fantástico, e prêmios de cinema.
Pois bem. Discutindo sobre alguns aspectos do documentário, técnicos e estéticos, eis que brota uma questão na cabecinha perturbada que lhes escreve. Todo o mundo fala de uso de cobaias na ciência, aquela coisa de "sacrificar" vidas indefesas em função de um utilitarismo - a cura de uma doença, o desenvolvimento de um medicamento, whatever.
Mas o jornalismo documental, vamos assim chamar - aquele que busca na história de vida de pessoas comuns mostrar uma determinada realidade, ou denunciar uma determinada condição ou falta de - não faz a mesma coisa? "Usa" pessoas e seus sentimentos/sofrimentos para transmitir uma determinada mensagem pré-definida pelo jornalista e alheia ao retratado? Será que isso não é pior do que o uso de cobaias na ciência? Ou minimamente tão condenável quanto?
"Ah, mas é informação!", poderiam argumentar alguns. Mesmo? Pura? Será? Acho que é algo parrecido com o que questionei no post anterior, sobre o bingo do número de vítimas do acidente em Congonhas identificadas pelo IML.
Não sei, de algum modo às vezes a prática jornalística nesse sentido me parece manipuladora em excesso. O jornalismo tem inerente a si uma alta carga de manipulação; a prática da edição é nada menos do que isso. Seleciona-se, de uma vasta gama de materiais, aquele que, de acordo com critérios como linha editorial, código deontológico, manual de redação e, claro, pensamentos e sentimentos humanos, melhor expressa o recorte de realidade que se pretende fazer.
A questão é o nível de manipulação e o direcionamento que se dá a isso. Numa das cenas do documentário, uma família que se mudou do lugar onde sempre viveu diz que preferia ter continuado no local de origem, mas o faz sorrindo, sem constrangimento. O documentarista pergunta se eles são sempre felizes daquele jeito, e eles respondem que sim. Simples assim.
Não fosse pela insistência do documentarista: "Mas sempre? Vocês nunca tiveram um momento de tristeza?" Resposta negativa. "Mesmo?" Insiste mais uma vez, até que arranca da mulher uma vaga lembrança de uma sobrinha falecida - que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com o tema do documentário, que trata das mudanças nas vidas das pessoas.
Discutimos se era necessário inserir aquilo no documentário, se não era uma forçação de barra (como se o documentarista tivesse ficado frustrado com o fato de uma família tão pobre e que acabara de abrir mão de seu lar original não ser triste). Manipulação além do necessário.
No caso do documentário, talvez não haja o que discutir, dado o caráter dele, mais intimista, mais subjetivo mesmo. Mas quantas vezes já não vimos algo parecido com isso em matérias, sobretudo as televisivas? Principalmente no que diz respeito às entrevistas com parentes de vítimas de desastres, como o aeronáutico mais recente.
Pretende-se reforçar a idéia de que foi uma enorme tragédia, de que a culpa é das autoridades irresponsáveis e desumanas. Mas isso não é feito com os fatos - que, desta vez sim, falam por si sós! -, mas às custas do método "espremedor de choro", às custas do massacre psicológico para versão transmissão em rede nacional... É mesmo necessário?
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
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