quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Cobaias

Estava eu assistindo ao documentário de Caio Cavechini, ex-aluno da ECA-USP - Antes, um dia e depois, de 2006, para a disciplina "Projetos em TV". O TCC do rapaz rendeu-lhe vaga no quadro "Profissão Repórter", do Fantástico, e prêmios de cinema.

Pois bem. Discutindo sobre alguns aspectos do documentário, técnicos e estéticos, eis que brota uma questão na cabecinha perturbada que lhes escreve. Todo o mundo fala de uso de cobaias na ciência, aquela coisa de "sacrificar" vidas indefesas em função de um utilitarismo - a cura de uma doença, o desenvolvimento de um medicamento, whatever.

Mas o jornalismo documental, vamos assim chamar - aquele que busca na história de vida de pessoas comuns mostrar uma determinada realidade, ou denunciar uma determinada condição ou falta de - não faz a mesma coisa? "Usa" pessoas e seus sentimentos/sofrimentos para transmitir uma determinada mensagem pré-definida pelo jornalista e alheia ao retratado? Será que isso não é pior do que o uso de cobaias na ciência? Ou minimamente tão condenável quanto?

"Ah, mas é informação!", poderiam argumentar alguns. Mesmo? Pura? Será? Acho que é algo parrecido com o que questionei no post anterior, sobre o bingo do número de vítimas do acidente em Congonhas identificadas pelo IML.

Não sei, de algum modo às vezes a prática jornalística nesse sentido me parece manipuladora em excesso. O jornalismo tem inerente a si uma alta carga de manipulação; a prática da edição é nada menos do que isso. Seleciona-se, de uma vasta gama de materiais, aquele que, de acordo com critérios como linha editorial, código deontológico, manual de redação e, claro, pensamentos e sentimentos humanos, melhor expressa o recorte de realidade que se pretende fazer.

A questão é o nível de manipulação e o direcionamento que se dá a isso. Numa das cenas do documentário, uma família que se mudou do lugar onde sempre viveu diz que preferia ter continuado no local de origem, mas o faz sorrindo, sem constrangimento. O documentarista pergunta se eles são sempre felizes daquele jeito, e eles respondem que sim. Simples assim.

Não fosse pela insistência do documentarista: "Mas sempre? Vocês nunca tiveram um momento de tristeza?" Resposta negativa. "Mesmo?" Insiste mais uma vez, até que arranca da mulher uma vaga lembrança de uma sobrinha falecida - que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com o tema do documentário, que trata das mudanças nas vidas das pessoas.

Discutimos se era necessário inserir aquilo no documentário, se não era uma forçação de barra (como se o documentarista tivesse ficado frustrado com o fato de uma família tão pobre e que acabara de abrir mão de seu lar original não ser triste). Manipulação além do necessário.

No caso do documentário, talvez não haja o que discutir, dado o caráter dele, mais intimista, mais subjetivo mesmo. Mas quantas vezes já não vimos algo parecido com isso em matérias, sobretudo as televisivas? Principalmente no que diz respeito às entrevistas com parentes de vítimas de desastres, como o aeronáutico mais recente.

Pretende-se reforçar a idéia de que foi uma enorme tragédia, de que a culpa é das autoridades irresponsáveis e desumanas. Mas isso não é feito com os fatos - que, desta vez sim, falam por si sós! -, mas às custas do método "espremedor de choro", às custas do massacre psicológico para versão transmissão em rede nacional... É mesmo necessário?

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Mais um, tatatá! Mais um, tatatá!

Portal do Governo do Estado:


Vai dizer que isso não lembra o mote das pegadinhas, vai...?

Ah, é mesmo: tá mais para TeleSena: "de hora em hora, transmitimos os resultados do sorteio da TeleSena..." - perceba que a periodicidade tá batendo!

Pelo amor de Deus ou o que quer que exista por aí, se alguém me disser que isso é prestação de serviço eu paro agora e vou vender meus brigadeiros na rua (se bem que, do jeito que a coisa anda, é capaz de dar mais lucro)...

Muito embora a via aí seja de mão dupla: a velha história do "se tem produto, tem quem compre" - o pior é saber que a imprensa "séria", "comprometida", é justamente o que alimenta isso. OK, o número de corpos identificados após o acidente é, sim, um dado que complementa a informação sobre o caso, mas daí a torná-lo o enfoque único de uma matéria? E, numa boa, uma vez sabido o número total de vítimas, que importância tem saber quantas já foram identificadas?

Será que não há outras questões mais importantes? Óbvio que sim. Não que elas não estejam sendo tratadas, mas têm sido muito mal tratadas. Oras, não vi nem ouvi ninguém questionar que raios os parlamentares envolvidos na CPI do Caos Aéreo (aliás, vão dar nome estúpido pra CPI assim lá na China) têm para fazer lá nos EUA para acompanhar a prospecção de dados das caixas-pretaas do avião da TAM... Por acaso algum deles é especialista ou conhecedor mínimo de tecnologia aeronáutica? E o pior: foram tomados como fontes confiáveis para matérias sobre o conteúdo das caixas-pretas - matérias, aliás, simples e meramente especulatórias.

Podemos olhar a imagem acima também como sendo uma resposta do governo às repetidas matérias retratando a reclamação de parentes de vítimas na demora da identificação de corpos. Até aí, creio eu que uma assessoria de imprensa governamental não fez menos do que se esperava dela - muito embora acredite que continue sendo um erro crasso, dado que o governo não perde a oportunidade de manifestar extrema humanidade e comoção diante do fato; soltar boletins de hora em hora falando em números é um paradoxo absoluto.

É... Cada tragédia é um flash.