[“Valsa das flores” com ranço de ringtone de celular]...5h30. Augh. Meus olhos se recusam terminantemente a abrir... Seria só a remela, ou o cansaço? Cansaço... Cansaço extremo, cansaço de tudo. Cansaço de quase todos. E só de lembrar deles, de que eu não poderei me furtar ao contato nem à interação com eles... o cansaço ganha proporções imensas.
Ainda deitada, volto-me para a janela, cujas frestas dão uma pista de quão bonito será o dia que já me começou tão pesaroso. Adoro dias de outono, aqueles de céu bem azul, sem nenhuma nuvem, e aquele friozinho... Mas as pessoas... Ai, as pessoas...
...[Suspiro]...
Assim que saio de casa e o primeiro sopro do ar azul-dourado do meu dia de outono passa sobre meu rosto, vem a explosão. O estouro. Ah, quer saber? QUE SE DANEM!! Vou me dar ao luxo de fazer o que quiser. Vou aonde possa curtir meu dia de outono.
E assim me dou ao luxo de andar devagar, respirar. Me dou ao luxo de esquecer as horas marcadas e, de repente, parar na rua e ficar com cara de bocó, olhando encantada para um pássaro que faz a festa na areia da construção. Me dou ao luxo de achar sensacional que uma planta cresça na fenda do viaduto. Sem medo de parecer idiota aos outros.
Me dou ao luxo de olhar detidamente as fachadas de prédios esquecidos, e brincar de adivinhar o que – ou quem – eles abrigaram um dia, se eram luxuosos por dentro, se foram famosos... Me dou ao luxo de me perguntar por que foram abandonados, de me imaginar lá dentro em uma época distante e bonita...
Me dou ao luxo de ter preguiça de trabalhar, preguiça de estudar. Preguiça de tentar fazer tudo perfeito, até o fim. Me dou ao luxo de me preocupar com a perfeição da minha felicidade, só da minha, sem pensar nos rótulos políticos que vou receber das pessoas que não suporto mais (egoísta, reacionária, direitista, porca capitalista).
Então, me dou ao luxo de tomar aquele sorvete com gosto de infância enquanto me sento no balanço sob as árvores e coberto de terra, sonhando um dia encontrar o céu. Só porque eu era feliz assim, porque eu era feliz quando fazia isso – e, assim, me dou ao luxo de pôr em prática meu pensamento de que não é agora que eu cresci que eu vou deixar de ser feliz com as mesmas coisas com as quais eu ficava quando era criança...
Mas, sobretudo, me dou ao luxo de sentir meus sentimentos.
Me permito parar de escondê-los para que o mundo ache que eu sou de pedra, para parecer inabalável. Me dou ao luxo de olhar os arranjos da floricultura e desejar de coração receber um daqueles algum dia, de desejar que os braços que o trariam existissem, de admitir que sinto falta deles.
Me dou ao luxo de dizer que odeio. De dizer que acho estúpido, incompetente, burro. Me dou ao luxo de mandar para o inferno e fazer o que acho certo. Me dou ao luxo de ficar feliz com o que faço, de ver o que faço ter o resultado que sonhava.
...Ufa...
...Mas o meu peito ainda pesa... Por quê? Mesmo depois de tanto dizer, mesmo depois de tanto sentir... Mesmo depois de tanto luxo... Seriam eles tão pequenos que, nem mesmo todos juntos, são capazes de me satisfazer?
...Não...
É porque são grandes demais para se concretizarem.
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