segunda-feira, 14 de maio de 2007

Jornalismo cidadão ou Jornalismo DO cidadão?

Aproveito este espaço pra compartilhar algumas reflexões que venho fazendo há algum tempo sobre um fenômeno que vcs devem acompanhar mais ou menos, pela internet (não, não é o aquecimento global): o "jornalismo cidadão", ou o "jornalismo participativo".

Matérias como esta, que saiu no Estadão certa vez, fazem a maior propaganda do negócio, têm todo aquele discurso de apropriação da mídia e combate à sua manipulação... Enfim, o "faça sua própria notícia" é o sonho realizado de democratização da comunicação. Hmmmm... Será? ("cara de conteúdo")

Claro que a participação de leitores, em qualquer meio de comunicação, é altamente importante. Muitas matérias saem (e muitas mais deveriam sair) de sugestões de leitores, pois são eles - vocês, eu, qualquer um - os que mais sabem onde é que o sapato aperta. E a função do jornalismo, pelo menos para mim, é nada menos que prestar serviço à população, e pelo menos ajudá-la a resolver aqueles que nem deveriam existir.

Mas por que isso, essa explosão de seções "envie sua notícia", necessariamente tem que ser jornalismo cidadão? Por que o jornalismo que busca soluções para problemas das comunidades, o bom e velho jornalismo investigativo, e o jornalismo bem feito e bem pensado - todos já existentes há muito - não têm essa denominação, ou não podem pertencer a esta categoria? Creio que, se precisamos mesmo denominar esse tal fenômeno, que tal colocar uma preposiçãozinha (jornalismo do cidadão)? Afinal de contas, o cidadão é o "ator", é aquele que faz.

Outra pergunta importante: qualquer coisa que se envie nesses mecanismos é notícia? Ok, concordo (muito) que é uma excelente oportunidade para profissionais e - talvez sobretudo - empresários da comunicação de que o foco precisa mudar, que nem sempre o que interessa a nós, que trabalhamos com isso, é o interesse geral. De que talvez tenhamos que repensar nossa postura - eu diria até descer do pedestal.

Mas dizer que "A diferença entre uma notícia de um site tradicional e a publicada pela gente no blog é que conseguimos criar uma relação mais próxima com os leitores" e que "As pessoas acessam o blog para ver as nossas impressões sobre tal coleção, por exemplo.", como está na matéria do Estadão que eu citei, me "encabula" um pouco. Ué, fato/notícia e opinião não são coisas diferentes?

Opinião é necessariamente jornalismo? Jornalismo pode ser opinativo? Minha resposta à primeira pergunta: não. Por isso, a ridicularidade de se tentar exigir diploma de um comentarista, como recentemente se tentou fazer. Sua opinião é sua, você a teria independentemente de ter feito uma universidade ou não.

À segunda pergunta: sabemos que o jornalismo envolve, fatalmente, opinião - do editor, do dono do veículo, do repórter, de quem é ouvido para compor a matéria (a tal da fonte). Mas no caso do "jornalismo cidadão" das personal stylists, a notícia são as impressões delas sobre os desfiles - opinião pura e simples, não? Isso envolve um questionamento técnico e essencial ao exercício do jornalismo.

Tá, talvez eu esteja querendo defender meu emprego, a ocupação que eu escolhi para o resto da vida... Mas pensar não custa nada, não é? Principalmente diante de matérias como esta outra.

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