Aproveito este espaço pra compartilhar algumas reflexões que venho fazendo há algum tempo sobre um fenômeno que vcs devem acompanhar mais ou menos, pela internet (não, não é o aquecimento global): o "jornalismo cidadão", ou o "jornalismo participativo".
Matérias como esta, que saiu no Estadão certa vez, fazem a maior propaganda do negócio, têm todo aquele discurso de apropriação da mídia e combate à sua manipulação... Enfim, o "faça sua própria notícia" é o sonho realizado de democratização da comunicação. Hmmmm... Será? ("cara de conteúdo")
Claro que a participação de leitores, em qualquer meio de comunicação, é altamente importante. Muitas matérias saem (e muitas mais deveriam sair) de sugestões de leitores, pois são eles - vocês, eu, qualquer um - os que mais sabem onde é que o sapato aperta. E a função do jornalismo, pelo menos para mim, é nada menos que prestar serviço à população, e pelo menos ajudá-la a resolver aqueles que nem deveriam existir.
Mas por que isso, essa explosão de seções "envie sua notícia", necessariamente tem que ser jornalismo cidadão? Por que o jornalismo que busca soluções para problemas das comunidades, o bom e velho jornalismo investigativo, e o jornalismo bem feito e bem pensado - todos já existentes há muito - não têm essa denominação, ou não podem pertencer a esta categoria? Creio que, se precisamos mesmo denominar esse tal fenômeno, que tal colocar uma preposiçãozinha (jornalismo do cidadão)? Afinal de contas, o cidadão é o "ator", é aquele que faz.
Outra pergunta importante: qualquer coisa que se envie nesses mecanismos é notícia? Ok, concordo (muito) que é uma excelente oportunidade para profissionais e - talvez sobretudo - empresários da comunicação de que o foco precisa mudar, que nem sempre o que interessa a nós, que trabalhamos com isso, é o interesse geral. De que talvez tenhamos que repensar nossa postura - eu diria até descer do pedestal.
Mas dizer que "A diferença entre uma notícia de um site tradicional e a publicada pela gente no blog é que conseguimos criar uma relação mais próxima com os leitores" e que "As pessoas acessam o blog para ver as nossas impressões sobre tal coleção, por exemplo.", como está na matéria do Estadão que eu citei, me "encabula" um pouco. Ué, fato/notícia e opinião não são coisas diferentes?
Opinião é necessariamente jornalismo? Jornalismo pode ser opinativo? Minha resposta à primeira pergunta: não. Por isso, a ridicularidade de se tentar exigir diploma de um comentarista, como recentemente se tentou fazer. Sua opinião é sua, você a teria independentemente de ter feito uma universidade ou não.
À segunda pergunta: sabemos que o jornalismo envolve, fatalmente, opinião - do editor, do dono do veículo, do repórter, de quem é ouvido para compor a matéria (a tal da fonte). Mas no caso do "jornalismo cidadão" das personal stylists, a notícia são as impressões delas sobre os desfiles - opinião pura e simples, não? Isso envolve um questionamento técnico e essencial ao exercício do jornalismo.
Tá, talvez eu esteja querendo defender meu emprego, a ocupação que eu escolhi para o resto da vida... Mas pensar não custa nada, não é? Principalmente diante de matérias como esta outra.
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