terça-feira, 27 de novembro de 2007

Boa iniciativa

Essa do Estadão, de lançar uma revista de grandes reportagens sobre a Amazônia. A revista, que veio encartada na edição de domingo, primeiro me assustou, pra depois fazer algum efeito, digamos, intelectual (este post).

Assustou porque é um espaço bastante nobre, com papel nobre e impressão de excelente qualidade, bem como um tratamento gráfico que se vê em pouquíssimas publicações - as que a apresentam, dificilmente são voltadas a um público mais geral e nunca são gratuitas. Creio que é óbvio, também, que não há nenhum inocente aqui que ache que isso foi fruto de um nobre sacrifício e esforço do Estadão para conscientizar as pessoas sobre a importância da floresta - mas que, sim, deve ter tido patrocinadores no mínimo grandes.

A intenção não sei se cabe discutir, já que é possível olhar por diversos ângulos - como sempre -; posso tanto ver como um oportunismo diante dos constantes alertas sobre aquecimento global e meio ambiente para vender mais exemplares, como posso ver como uma iniciativa genuína de um trabalho genuíno de jornalismo cumprindo uma função verdadeiramente social. Eu? Acho que são os dois.

"Ih, reacionária", podem pensar alguns; "Pra gostar do Estadão...". Não, não é pelo fato de ser do Estadão ou de qualquer outro jornal. É pela qualidade dos textos e das fotografias, pela quantidade e detalhamento dos dados, que "denunciam" uma apuração no mínimo grande da reportagem. Características que creio ser as essenciais para que um trabalho jornalístico possa exercer a sua função social de não só informar, mas formar - ou, no mínimo, dar subsídios para que o leitor possa se formar.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

"Novo" Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros

Faz-me rir:

"Art. 7º O jornalista não pode:

I – aceitar ou oferecer trabalho remunerado em desacordo com o piso salarial, a carga horária legal ou tabela fixada por sua entidade de classe, nem contribuir ativa ou passivamente para a precarização das condições de trabalho;"


Ah, tá. O jornalista não pode, mas as empresas podem arrochar o salário, exercer pressão silenciosa, contratar "frilas fixos" e oferecer estágios de 8 a 9 horas... E eu sou o Bozo. (Só um desabafo)

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Cobaias

Estava eu assistindo ao documentário de Caio Cavechini, ex-aluno da ECA-USP - Antes, um dia e depois, de 2006, para a disciplina "Projetos em TV". O TCC do rapaz rendeu-lhe vaga no quadro "Profissão Repórter", do Fantástico, e prêmios de cinema.

Pois bem. Discutindo sobre alguns aspectos do documentário, técnicos e estéticos, eis que brota uma questão na cabecinha perturbada que lhes escreve. Todo o mundo fala de uso de cobaias na ciência, aquela coisa de "sacrificar" vidas indefesas em função de um utilitarismo - a cura de uma doença, o desenvolvimento de um medicamento, whatever.

Mas o jornalismo documental, vamos assim chamar - aquele que busca na história de vida de pessoas comuns mostrar uma determinada realidade, ou denunciar uma determinada condição ou falta de - não faz a mesma coisa? "Usa" pessoas e seus sentimentos/sofrimentos para transmitir uma determinada mensagem pré-definida pelo jornalista e alheia ao retratado? Será que isso não é pior do que o uso de cobaias na ciência? Ou minimamente tão condenável quanto?

"Ah, mas é informação!", poderiam argumentar alguns. Mesmo? Pura? Será? Acho que é algo parrecido com o que questionei no post anterior, sobre o bingo do número de vítimas do acidente em Congonhas identificadas pelo IML.

Não sei, de algum modo às vezes a prática jornalística nesse sentido me parece manipuladora em excesso. O jornalismo tem inerente a si uma alta carga de manipulação; a prática da edição é nada menos do que isso. Seleciona-se, de uma vasta gama de materiais, aquele que, de acordo com critérios como linha editorial, código deontológico, manual de redação e, claro, pensamentos e sentimentos humanos, melhor expressa o recorte de realidade que se pretende fazer.

A questão é o nível de manipulação e o direcionamento que se dá a isso. Numa das cenas do documentário, uma família que se mudou do lugar onde sempre viveu diz que preferia ter continuado no local de origem, mas o faz sorrindo, sem constrangimento. O documentarista pergunta se eles são sempre felizes daquele jeito, e eles respondem que sim. Simples assim.

Não fosse pela insistência do documentarista: "Mas sempre? Vocês nunca tiveram um momento de tristeza?" Resposta negativa. "Mesmo?" Insiste mais uma vez, até que arranca da mulher uma vaga lembrança de uma sobrinha falecida - que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com o tema do documentário, que trata das mudanças nas vidas das pessoas.

Discutimos se era necessário inserir aquilo no documentário, se não era uma forçação de barra (como se o documentarista tivesse ficado frustrado com o fato de uma família tão pobre e que acabara de abrir mão de seu lar original não ser triste). Manipulação além do necessário.

No caso do documentário, talvez não haja o que discutir, dado o caráter dele, mais intimista, mais subjetivo mesmo. Mas quantas vezes já não vimos algo parecido com isso em matérias, sobretudo as televisivas? Principalmente no que diz respeito às entrevistas com parentes de vítimas de desastres, como o aeronáutico mais recente.

Pretende-se reforçar a idéia de que foi uma enorme tragédia, de que a culpa é das autoridades irresponsáveis e desumanas. Mas isso não é feito com os fatos - que, desta vez sim, falam por si sós! -, mas às custas do método "espremedor de choro", às custas do massacre psicológico para versão transmissão em rede nacional... É mesmo necessário?

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Mais um, tatatá! Mais um, tatatá!

Portal do Governo do Estado:


Vai dizer que isso não lembra o mote das pegadinhas, vai...?

Ah, é mesmo: tá mais para TeleSena: "de hora em hora, transmitimos os resultados do sorteio da TeleSena..." - perceba que a periodicidade tá batendo!

Pelo amor de Deus ou o que quer que exista por aí, se alguém me disser que isso é prestação de serviço eu paro agora e vou vender meus brigadeiros na rua (se bem que, do jeito que a coisa anda, é capaz de dar mais lucro)...

Muito embora a via aí seja de mão dupla: a velha história do "se tem produto, tem quem compre" - o pior é saber que a imprensa "séria", "comprometida", é justamente o que alimenta isso. OK, o número de corpos identificados após o acidente é, sim, um dado que complementa a informação sobre o caso, mas daí a torná-lo o enfoque único de uma matéria? E, numa boa, uma vez sabido o número total de vítimas, que importância tem saber quantas já foram identificadas?

Será que não há outras questões mais importantes? Óbvio que sim. Não que elas não estejam sendo tratadas, mas têm sido muito mal tratadas. Oras, não vi nem ouvi ninguém questionar que raios os parlamentares envolvidos na CPI do Caos Aéreo (aliás, vão dar nome estúpido pra CPI assim lá na China) têm para fazer lá nos EUA para acompanhar a prospecção de dados das caixas-pretaas do avião da TAM... Por acaso algum deles é especialista ou conhecedor mínimo de tecnologia aeronáutica? E o pior: foram tomados como fontes confiáveis para matérias sobre o conteúdo das caixas-pretas - matérias, aliás, simples e meramente especulatórias.

Podemos olhar a imagem acima também como sendo uma resposta do governo às repetidas matérias retratando a reclamação de parentes de vítimas na demora da identificação de corpos. Até aí, creio eu que uma assessoria de imprensa governamental não fez menos do que se esperava dela - muito embora acredite que continue sendo um erro crasso, dado que o governo não perde a oportunidade de manifestar extrema humanidade e comoção diante do fato; soltar boletins de hora em hora falando em números é um paradoxo absoluto.

É... Cada tragédia é um flash.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Diz que não foi de propósito, vai

"Índios querer"? Diz que não foi de propósito, diz...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Quem fica? Quem sai?

Acompanhando, a distância, o Mediaon - I Seminário Internacional de Jornalismo On-line, ouvi a frase

"Há uns tempos atrás, o foca que ficava era aqueles que empinava melhor a bola no nariz"

do Mario Andrade e Silva, diretor da Reuters América Latina. Aí, pensei na minha situação enquanto (projeto de) jornalista do mundo digital... Não pude evitar a atualização da frase:

Hoje, quem fica é o foca que assobia, chupa cana, se equilibra num pé só e faz malabares ao mesmo tempo...

É rir pra não chorar... (Afinal de contas, enquanto acompanhava o seminário, fazia o mapeamento de conteúdo de um portal, ensinava uma colega a "chamar" uma imagem para um texto com código HTML e verificava uma versão da Creative Commons - se vira nos 30!!! Ô loco, meu! Olha o que essa anta vai fazer!)

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Jornalista também escreve crônica

Grandes esperanças

[“Valsa das flores” com ranço de ringtone de celular]...5h30. Augh. Meus olhos se recusam terminantemente a abrir... Seria só a remela, ou o cansaço? Cansaço... Cansaço extremo, cansaço de tudo. Cansaço de quase todos. E só de lembrar deles, de que eu não poderei me furtar ao contato nem à interação com eles... o cansaço ganha proporções imensas.

Ainda deitada, volto-me para a janela, cujas frestas dão uma pista de quão bonito será o dia que já me começou tão pesaroso. Adoro dias de outono, aqueles de céu bem azul, sem nenhuma nuvem, e aquele friozinho... Mas as pessoas... Ai, as pessoas...

...[Suspiro]...

Assim que saio de casa e o primeiro sopro do ar azul-dourado do meu dia de outono passa sobre meu rosto, vem a explosão. O estouro. Ah, quer saber? QUE SE DANEM!! Vou me dar ao luxo de fazer o que quiser. Vou aonde possa curtir meu dia de outono.

E assim me dou ao luxo de andar devagar, respirar. Me dou ao luxo de esquecer as horas marcadas e, de repente, parar na rua e ficar com cara de bocó, olhando encantada para um pássaro que faz a festa na areia da construção. Me dou ao luxo de achar sensacional que uma planta cresça na fenda do viaduto. Sem medo de parecer idiota aos outros.

Me dou ao luxo de olhar detidamente as fachadas de prédios esquecidos, e brincar de adivinhar o que – ou quem – eles abrigaram um dia, se eram luxuosos por dentro, se foram famosos... Me dou ao luxo de me perguntar por que foram abandonados, de me imaginar lá dentro em uma época distante e bonita...

Me dou ao luxo de ter preguiça de trabalhar, preguiça de estudar. Preguiça de tentar fazer tudo perfeito, até o fim. Me dou ao luxo de me preocupar com a perfeição da minha felicidade, só da minha, sem pensar nos rótulos políticos que vou receber das pessoas que não suporto mais (egoísta, reacionária, direitista, porca capitalista).

Então, me dou ao luxo de tomar aquele sorvete com gosto de infância enquanto me sento no balanço sob as árvores e coberto de terra, sonhando um dia encontrar o céu. Só porque eu era feliz assim, porque eu era feliz quando fazia isso – e, assim, me dou ao luxo de pôr em prática meu pensamento de que não é agora que eu cresci que eu vou deixar de ser feliz com as mesmas coisas com as quais eu ficava quando era criança...

Mas, sobretudo, me dou ao luxo de sentir meus sentimentos.

Me permito parar de escondê-los para que o mundo ache que eu sou de pedra, para parecer inabalável. Me dou ao luxo de olhar os arranjos da floricultura e desejar de coração receber um daqueles algum dia, de desejar que os braços que o trariam existissem, de admitir que sinto falta deles.

Me dou ao luxo de dizer que odeio. De dizer que acho estúpido, incompetente, burro. Me dou ao luxo de mandar para o inferno e fazer o que acho certo. Me dou ao luxo de ficar feliz com o que faço, de ver o que faço ter o resultado que sonhava.

...Ufa...

...Mas o meu peito ainda pesa... Por quê? Mesmo depois de tanto dizer, mesmo depois de tanto sentir... Mesmo depois de tanto luxo... Seriam eles tão pequenos que, nem mesmo todos juntos, são capazes de me satisfazer?

...Não...

É porque são grandes demais para se concretizarem.

Publicada no suplemento Claro!, do Jornal do Campus da USP

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Chapa Branca

Chapa branca me parece o pior "elogio" que se pode fazer a uma matéria, ou a um trabalho jornalístico. É tão... Afinal, de fato, coisas feitas nos moldes chapa-branca são absolutamente intragáveis. Conteúdo jornalístico chapa-branca é publicidade, não adianta. E se eu odeio ler, imagina só escrever...

Pois é: eu consigo escrever uma, se tiver de fazê-lo; mas precisa valer muito a pena, porque o embrulho no estômago é grande demais. Eu começo, mas aí simplesmente não dá pra terminar. É aquela sensação de que todo mundo me falava que existia no jornalismo, mas eu nunca tinha sentido: sensação de estar fazendo uma coisa que vai contra o que eu acredito. E isso dói.

Estava pensando que no trabalho que eu faço não estava cumprindo exatamente a função que deveria - e não tinha nada a ver com o que me mandavam fazer, tinha a ver com o que eu sentia que deveria ser um trabalho jornalístico na esfera pública (leia-se serviço governamental). Numa dessas, pensei em uma matéria que contextualizasse os usuários desse serviço no propósito dele.

O tema, então, seria software livre. Por que tanta polêmica sobre ele, por que tanta discussão, por que usá-lo e o que afinal ele tem a ver com o objetivo desse serviço (inclusão digital)? Essas eram as perguntas que eu pretendia responder na matéria, exclusivamente. E estava conseguindo.

Aí entra a chapa-branca. Enorme, reluzente. "Por que não fazemos um gancho com o programa?" pergunta o meu editor. Resposta (mental, por óbvio): "Porque eu não quero alienar o público, droga". Mas que raios! Se eu colocar menções ao programa o tempo todo, vou acabar fazendo uma propaganda dele, ao invés de informar. Vai ser uma mera matéria "Por que o programa x usa software livre?" e não uma "O que é software livre?", que considero mais importante.

Por que o interesse público é engolido pelo privado, na maioria das vezes? Cadê a função social do jornalismo? Cadê a minha função social?? Aliás, cadê a minha liberdade de exercê-la?

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Grobo


Ontem eu fui visitar a Grobo, lá na Berrini, e acompanhar o fechamento do Jornal da Globo.

Contendo todos os meus ímpetos de deslumbramento iniciais e pensando com a cabeça, o que eu sei depois dessa visita é que a televisão passou a figurar na minha lista de possibilidades profissionais. Digo "passou a figurar" porque antes eu nem sequer cogitava a mais remota possibilidade de entrar no meio. E isso não foi só por causa da Grobo não... Ela só acabou consolidando uma coisa que eu comecei a sentir no início das aulas de telejornalismo.

OK, ainda não é exatamente o meu primeiro lugar na lista. Nem o segundo. Talvez o terceiro... Mas o negócio é que entrou na lista. E cada vez mais eu descubro que eu gosto de ser editora... E deixo de achar que isso é um pecado que vai me levar pro inferno. Louco, não?

Entrei na faculdade querendo ser repórter. Logo no começo, veio a idéia de que talvez eu não tivesse assim tanto... hm... pique para aquilo. Mas, de algum modo, eu não queria admitir, porque imagina só: um jornalista que não gosta de ser repórter! Que aberração! "A reportagem é a alma do jornalismo"!

Eu não discordo. É óbvio que sim; afinal, a reportagem é a matéria-prima do jornalismo. Mas o tipo de reportagem de que gosto de fazer e que me sinto mais à vontade fazendo tem tão pouco espaço... Não estou falando da graande reportaaagem, nem da investigativa que exige riscos (não que eu não tenha a maior inveja de quem consegue fazê-las, mas, desculpem, eu não tenho colhões pra isso). Tô falando da reportagem que, mesmo pequena, tem a possibilidade de fazer a diferença pra alguém. Diferente da factual, da que a gente lê de relance.

Mas voltando à coisa da Grobo: fui lá, com professor e mais quatro colegas, e acompanhei a reunião de pauta ("de caixa", no jargão deles), falamos com o Gueiros, gerente de operações (taí um cara que eu queria ser igual quando crescer - ele visivelmente adora o que faz), com o Waack... Tudo bonitinho.

Aí, mais perto do fechamento propriamente dito, cada um ficou acompanhando um editor. Fiquei com a Evane, de Política ("barra Polícia", como disse o Erick Bretas). Foi aí que eu me encantei - e não tenho vergonha de usar esse termo. É aquilo que eu gosto de fazer! Coordenar, organizar, ver o todo! E, no fim das contas, o editor também tem seu papel na reportagem: o de burilar o material... Certo, nem sempre de modo satisfatório, nem sempre do modo correto.

Entrei numa crise de "será que sou autoritária? Controladora?", mas depois desencanei. É só que eu gosto mais de trabalhar com isso mesmo... E pode parecer brega, mas me libertei, ao ver que sem editor também não tem jornal. E que ele não precisa ser o burocrata que não sabe o que é jornalismo, como sempre me disseram que ele é.

Por que é que às vezes o jornalismo me parece uma área em que você não pode se dar ao direito?

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Tem coisas que só as manchetes podem fazer por você



Tem manchetes em que a gente prefere não acreditar...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Papa? Cheeeeeega!


Caricatura de Bento XVI - retirada de Sergei Cartoons

"O Papa Bento XVI acaba de..." Quantas vezes ouvi ou li (ouvimos ou lemos, aliás) essa frase nos últimos dias? Já não agüentava mais...

O problema nem é só esse. Sabemos que, quando os jornais - e os jornalistas - enfiam que uma pauta é "agenda", ou como quer que chamem a fixação por um determinado assunto na mídia, não há quem tire. Só o desgaste, ou o próximo da lista nesses assuntos. O problema foi a cobertura unívoca, unilateral, boboca - e depois falam do titio Macedo usando espaço da Record pra "escutar o que as pessoas falam"... Ora.

Leila Reis, em sua coluna no suplemento TV&Lazer do Estadão deste domingo descreveu bem o "fenômeno" que desabou sobre todos os que têm algum tipo de contato com algum tipo de mídia. E o definiu também muito bem: pieguice, breguice. Sandra Annenberg vibrando porque o Papa "deu um tchauzinho" pra ela - Deus (com o perdão do trocadilho) sabe se foi mesmo, no meio daquela muvuca; as referências inúmeras ao "santo padre", ao "representante de Deus".

Em meio a tudo isso: o que, afinal, ele veio fazer aqui? - pergunte a (quase) qualquer um e verá o quanto a imprensa foi capaz de informar nesta última semana. Amigos, igualmente estudantes, igualmente projetos de jornalistas que ficam pendurados na internet o dia todo vieram com a clássica: "visitar o Brasil, porque é um país de católicos!".

Talvez, claro, isso tenha entrado na pauta (com o perdão do trocadilho) do Vaticano. Mas foi o motivo do carismático (?!) líder religioso nos ter dado a honra da presença? Ei, será que alguém lembra que estaria acontecendo em Aparecida a Conferência Episcopal da América Latina e do Caribe?

Ah, é um evento quase sem importância, que reúne líderes católicos de meia dúzia de países, só, e que nem tem efeito nenhum sobre as diretrizes da religião pelos próximos 3 anos, né... Deve ser por isso...

Minha vó, católica fervorosa daquelas que te deixam com medo de Deus, nem se deu conta do acontecido. Olhava pra televisão e perguntava: "por que estão pulando carnaval nessa época do ano?". É... tem hora que é melhor ter Alzheimer que ouvir porcaria.

Jornalismo cidadão ou Jornalismo DO cidadão?

Aproveito este espaço pra compartilhar algumas reflexões que venho fazendo há algum tempo sobre um fenômeno que vcs devem acompanhar mais ou menos, pela internet (não, não é o aquecimento global): o "jornalismo cidadão", ou o "jornalismo participativo".

Matérias como esta, que saiu no Estadão certa vez, fazem a maior propaganda do negócio, têm todo aquele discurso de apropriação da mídia e combate à sua manipulação... Enfim, o "faça sua própria notícia" é o sonho realizado de democratização da comunicação. Hmmmm... Será? ("cara de conteúdo")

Claro que a participação de leitores, em qualquer meio de comunicação, é altamente importante. Muitas matérias saem (e muitas mais deveriam sair) de sugestões de leitores, pois são eles - vocês, eu, qualquer um - os que mais sabem onde é que o sapato aperta. E a função do jornalismo, pelo menos para mim, é nada menos que prestar serviço à população, e pelo menos ajudá-la a resolver aqueles que nem deveriam existir.

Mas por que isso, essa explosão de seções "envie sua notícia", necessariamente tem que ser jornalismo cidadão? Por que o jornalismo que busca soluções para problemas das comunidades, o bom e velho jornalismo investigativo, e o jornalismo bem feito e bem pensado - todos já existentes há muito - não têm essa denominação, ou não podem pertencer a esta categoria? Creio que, se precisamos mesmo denominar esse tal fenômeno, que tal colocar uma preposiçãozinha (jornalismo do cidadão)? Afinal de contas, o cidadão é o "ator", é aquele que faz.

Outra pergunta importante: qualquer coisa que se envie nesses mecanismos é notícia? Ok, concordo (muito) que é uma excelente oportunidade para profissionais e - talvez sobretudo - empresários da comunicação de que o foco precisa mudar, que nem sempre o que interessa a nós, que trabalhamos com isso, é o interesse geral. De que talvez tenhamos que repensar nossa postura - eu diria até descer do pedestal.

Mas dizer que "A diferença entre uma notícia de um site tradicional e a publicada pela gente no blog é que conseguimos criar uma relação mais próxima com os leitores" e que "As pessoas acessam o blog para ver as nossas impressões sobre tal coleção, por exemplo.", como está na matéria do Estadão que eu citei, me "encabula" um pouco. Ué, fato/notícia e opinião não são coisas diferentes?

Opinião é necessariamente jornalismo? Jornalismo pode ser opinativo? Minha resposta à primeira pergunta: não. Por isso, a ridicularidade de se tentar exigir diploma de um comentarista, como recentemente se tentou fazer. Sua opinião é sua, você a teria independentemente de ter feito uma universidade ou não.

À segunda pergunta: sabemos que o jornalismo envolve, fatalmente, opinião - do editor, do dono do veículo, do repórter, de quem é ouvido para compor a matéria (a tal da fonte). Mas no caso do "jornalismo cidadão" das personal stylists, a notícia são as impressões delas sobre os desfiles - opinião pura e simples, não? Isso envolve um questionamento técnico e essencial ao exercício do jornalismo.

Tá, talvez eu esteja querendo defender meu emprego, a ocupação que eu escolhi para o resto da vida... Mas pensar não custa nada, não é? Principalmente diante de matérias como esta outra.